quando a mãe olhou pela fresta da porta, a menina estava guardando todos os brinquedos antigos em suas velhas caixas. retirava-os do baú dos preferidos, colocava na caixa e enfiava num saco preto, daqueles de lixo. por muito tempo a mãe estranhara: sua filha não era daquelas que tinha uma boneca preferida, com quem conversasse ou desejasse cortar os cabelos. era daquelas que queria apenas ter os brinquedos, para que, numa tarde fria, pudesse abrir o baú e alegrar-se em tê-los. se iria escolher um para brincar ou não, não importava. o que importava era a segurança de abrir o baú e ver todas aquelas peças lhe sorrindo, esperando um gesto, que fosse, para serem dela. mas a mãe estava parada na porta olhando e a menina estava retirando, um a um, os velhos brinquedos do baú. a menina não chorava ao fazer isso, e, embora ainda fosse muito nova, parecia determinada, sabia o que estava fazendo. após um longo tempo, a mãe viu que a menina subia na cama e colocava sobre a estante mais alta aquele que tinha sido o último presente. e, logo depois, enfiava no saco preto a caixa desse mesmo. estava certa: daquele a menina jamais pretenderia desfazer-se. ao fim do dia, a mãe abriu o baú e não tinha mais nada lá. nem uma pelúcia, nem um braço perdido, nem uma rodinha, nada. o baú estava vazio. sobrara no quarto apenas aquele brinquedo novo que a menina colocou, sabe-se lá o porquê, numa prateleira alta, distante, onde suas mãos pequeninas não podem alcançar. mas a menina não guardou a caixa. a mãe entendeu: ela sabe que a menina ama aquele brinquedo mais do que todos, e só irá tocá-lo quando for grande o suficiente. mas a menina já sabe que aquele há de ser, pra sempre, o único em seu quarto. só ele. nem uma pelúcia, nem um braço perdido, nem uma rodinha, nada.